A 7 de outubro de 2020, no decorrer das festividades possíveis deste ano, foi publicada na nossa página de facebook, a Lenda intitulada “Um Milagre Esquecido”.
Esta lenda foi publicada no dia de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da nossa festa, de modo a não esquecermos que a nossa festa não é só profana, mas também religiosa.
E hoje mais do que nunca, fez sentido agradecermos à Nossa Mãe do Céu todas as bênçãos concedidas, tal como aconteceu com Eugénia do Rosário, descrito na referida lenda.
Segundo me contaram, tudo terá começado no dia em que o bispo de Angra veio às Lagens benzer a imagem de Nossa Senhora do Rosário recentemente chegada à igreja. Corria a manhã do dia 4 outubro 1855, uma quinta-feira, e Dona Maria Francisca suava em bica, besuntada de odores a incenso e enxofre, apertada que estava no seu corpete negro mandado fazer na melhor das costureiras da cidade. D. João Maria, o bispo, vinha em visita pastoral à paróquia do Arcanjo com o propósito único de consagrar a estátua da santa, mandada vir de França para pagamento de uma promessa de seu pai, depois da vitória das tropas liberais na batalha do Pico Celeiro, ocorrida nessa mesma data, mas vinte e sete anos antes.
No ponto alto da solenidade, roxa de mal poder respirar, a velha morgada nem queria acreditar no que via. Neste caso, no que não via. O rosário de Nossa Senhora, mandado fazer a um ourives da cidade de Guimarães, tinha desaparecido das mãos da santa. Esbaforida, saiu correndo da igreja no encalço de Eugénia, filha do entalhador e suspeita número um.
A senhora Mercês do caminho de cima contou-me uma vez que a sua avó lhe dizia ter sido ela a tomar conta da filha do carpinteiro que fez o altar da Senhora do Rosário. Chegou a falar-me que uma vez viu uns rabiscos muito bem feitos nuns papeis velhos, mas não sabia o que era feito deles. Pedi que os procurasse. Talvez nunca mais se tenha lembrado disso. Deve ter-se esquecido. No dia em que a estátua chegou, o pai de Eugénia, ao chegar a casa, disse à filha que nunca tinha visto nada assim, nem mesmo em Angra, e “olha que já vi muitos santos”. Tão bela, tão rica, tão perfeita. “Dizem que a morgada a mandou vir da França!” Eugénia não sabia onde ficava a França e o pai, sabendo pouco mais do que ela, só lhe soube responder que era “uma terra muito longe daqui, mas que devia ser um lugar muito bonito, cheio de estátuas, igrejas, palácios e gente distinta.”
“Posso ir vê-la?”
A imagem estava fechada a sete chaves na sacristia. Só seria apresentada à população na quinta-feira aquando da sua bênção pelo bispo de Angra. O pai de Eugénia, talentoso e devoto entalhador, ficara incumbido de construir um novo altar para expor a mais recente aquisição da paróquia das Lagens. Era um trabalho minucioso, de precisão, que lhe exigia tempo e sossego, coisa difícil quando viúvo e tendo a seu cargo uma menina rebelde e vivaça como era a sua Eugénia, nome herdado da mãe.
Nos meses que antecederam à bênção, a criança ficara ao cuidado de uma vizinha, enquanto o pai passava dia e noite na igreja, fazendo desenhos, discutindo detalhes com o prior e a morgada, esculpindo madeira, cortando, aparando, entalhando e doirando. A encomenda chegara cerca de um ano antes quando D. Maria Francisca, a morgada que vivia na cidade, grande proprietária do Ramo Grande, anunciou à paroquia onde nasceu que iria oferecer à igreja uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, cumprindo assim a antiga promessa de seu pai, homem respeitado pelos lajenses, que, em vida, não tivera oportunidade de o fazer.
Ao contrário de seu pai, D. Maria Francisca era uma mulher temida, mal-amada, dir-se-ia mesmo odiada. Esta oferenda constituiria, por isso, também uma forma de conquistar os habitantes da paróquia, sendo que a sua grande maioria dependia dela e do trabalho nas suas terras pago a troco de um teto. Ouvira falar de Manuel durante os trabalhos de construção dos novos altares da Misericórdia, onde deu nas vistas. Gostou da obra feita. Manuel era, de facto, um entalhador com a qualidade dos maiores mestres do reino. Com este serviço, teve de se mudar para as Lajes juntamente com a filha. O trabalho era de grande responsabilidade, exigindo-lhe ter de cá ficar em permanência. A benemérita morgada disponibilizou-lhes uma das suas casas, no caminho de cima, onde pai e filha viveriam enquanto durasse a empreitada ou, quem sabe, para todo o sempre. Perguntei à senhora Mercês onde era essa casa. Disse-me que já não existia. Puseram-na ao chão quando construíram a escola da aldeia nova. “Até parece que foi de propósito”, desabafou, “a minha avó dizia que a Eugénia gostava muito daquelas flores cor de-rosa. A gente diz que são as meninas p’ra escola. Sabe quais são?”
Na noite que antecedeu ao desaparecimento do rosário, Manuel levou a filha a ver a imagem de Nossa Senhora e o seu novo altar. Eugénia ficou encantada com o que viu. Era como o pai descrevera. Ainda mais bonita. Nunca nos seus sonhos imaginara ver tamanha beleza. Entraram pela porta da sacristia que fazia as vezes de porta de serviço. Avisou-lhe que não mexesse em nada e que tivesse cuidado para não tropeçar em algum degrau ou candelabro. A iluminação era fraca. As trémulas chamas das velas aproximavam se do seu último fôlego. O altar-mor estava a ser decorado com verduras por uma senhora de confiança da morgada e o novo trono construído para a Senhora do Rosário permanecia despido para que a talha pudesse ser apreciada em toda a sua plenitude e a imagem parecesse ainda mais esplendorosa.
Apesar do avançado da noite, Manuel substituiu algumas das velas, acendeu outras e, ato contínuo, o rosto da Virgem e do Filho iluminaram-se, o brilho do ouro das suas vestes e a prata cintilante do rosário que traziam nas mãos encheram de luz a nave da igreja. Como que por instinto, Eugénia ajoelhou-se a seus pés e chorou. O pai fez de conta que não percebeu, mas sabia bem o que lhe iria na alma. O tempo não apagou as saudades da mãe. O silêncio da noite apoderou-se do ambiente, tendo sido interrompido por um estrondoso bater de portas. Passos firmes e pesados fizeram sacudir toda a igreja como se de um terramoto se tratasse. As grandes lajes de pedra que cobriam o chão pareciam estar a quebrar-se. Era a morgada. Manuel, rapidamente puxou a filha por um braço procurando escondê-la. Nesse movimento, Eugénia tropeçou e embateu contra o altar recentemente concluído e a imagem vinda de França estremeceu. Temeu-se o pior. A estátua não tombou, mas o rosário de prata saiu-lhe das mãos indo cair no chão sem que se quebrasse. D. Maria Francisca não presenciou o incidente, mas, pelo canto dos seus grandes olhos, ainda viu Eugénia esconder-se.
Na manhã seguinte, as portas da igreja abriram-se muito cedo. Dir-se-ia que ninguém as havia fechado na noite anterior. O bispo havia passado a noite em casa da morgada. Sabendo disso, o povo nem foi às terras e acorreu ao santuário para o poder ver e saudar. O adro encheu-se de gente, deixando ao meio um corredor para que a procissão de dignatários, saindo do passal ali ao lado, se dirigisse ao templo e D. João Maria pudesse presidir à esperada cerimónia de bênção da imagem.
Manuel e Eugénia, que lá tinham estado na noite anterior, não foram assistir ao ritual. Por essa razão, quando a morgada lhes apareceu de rompante porta adentro, ficaram assustados, tal era o tom da gritaria e dos insultos saídos da goela da honrada fidalga. Acusou-os de ladrões. Sem esperar resposta ou reação, Francisca começou a abrir gavetas e armários e quase tudo estava vazio. Vazio mesmo, sem nada lá dentro. Aquela não passava de uma casa de passagem, nunca seria um lar. Revirou sacolas, levantou colchões e até a retrete inspecionou. Nada. Quase os obrigou a tirar a roupa, mas desistiu desse pensamento, o que não invalidou, no entanto, que os rastreasse de alto a baixo passando os olhos pelos mais ínfimos detalhes que pudessem denunciar a presença da peça desparecida.
Avançava já a pesada senhora para a porta de saída, quando os seus olhos se cruzaram com um saco que ficara esquecido do lado de fora. Em fúria, pontapeou-o e do seu interior caíram limas, goivas, formões, um rosário e demais ferramentas de entalhador… Sorriu satisfeita consigo própria. Bem lhe parecia que só poderiam ser aqueles dois os ladrões do rosário. Quem mais?! Estava ali a prova. Nesse instante, Manuel mudou de cor e não abriu a boca. Não soube o que dizer. Eugénia, no entanto, reagiu dizendo que tinha sido ela a pôr o rosário no saco, depois deste ter caído no chão a seguir ao embate a que a imagem fora sujeita e que quase a fez tombar. Maria Francisca não acreditou, nem tão pouco a terá ouvido. Virou-se para o carpinteiro e disse-lhe que não saísse de casa até que alguém o viesse buscar, avisando-lhe que, quando saísse, seria pela última vez. Nem ele nem a filha deveriam regressar e, claro, esquecesse o pagamento. Aquela peça valia muito mais do que o trabalho realizado. Aliás, nem sequer tinha sido nada de especial. Manuel barafustou. Não lhe serviu de nada. Não demorou muito tempo até que o enviado da morgada aparecesse. Levaram o pai e Eugénia já havia sido acolhida pela vizinha que tantas vezes tomara conta dela nas suas ausências.
Estava inconsolável. Sabia o que verdadeiramente acontecera. Supusera que, ao ver o rosário, o pai o voltaria a colocar nas mãos da Santa. Não o fez. Talvez nem tivesse dado conta do objeto na sua mala de trabalho, talvez se tivesse esquecido, talvez, talvez... Mas estava inocente. Disso tinha a certeza. Fora ela a culpada.
Nesse mesmo dia, depois das orações de vésperas, Eugénia dirigiu se à igreja a pedir auxílio a Nossa Senhora do Rosário para que a ajudasse a provar a inocência do pai. Habituada que estava a andar por entre altares, beatas e imagens de santos, conhecia o hábito das pessoas levarem uma oferenda sempre que se deslocavam à igreja para pedirem alguma coisa a Deus. Podia ser uma vela, flores, dinheiro, uma galinha, uma saca de farinha, o que quisessem. No entanto, era a primeira vez que Eugénia se encontrava numa situação como esta e não sabia o que levar. À saída de casa, de mãos a abanar, reparou numa solitária flor cor-de-rosa e branca, uma beladona que parecia iluminar-se por entre as ervas daninhas que nasciam e cresciam junto ao muro da rua sem que ninguém lhes fizesse caso. Os seus olhos foram atraídos pela luminosidade daquele branco. Achou-a bonita. Aproximou-se dela. Colheu-a. Chegada ao altar esculpido pelo pai, Eugénia depositou a flor aos pés da Virgem, ajoelhou-se, doeram-lhe os joelhos, e, numa prece improvisada, pediu-lhe ajuda. Não queria também perder o pai…
Eugénia não conseguiu chegar com a sua oração até ao fim. A morgada, que também estava no interior do templo, assim que se apercebeu da presença da infeliz filha do ladrão do rosário, acorreu a recriminá-la pela falta de vergonha e de respeito por aquele chão sagrado. Ali não havia lugar para ladrões. Mesmo devota e senhora de saberes bíblicos, a mulher ter-se-á esquecido das companhias de Cristo no momento em que fora pregado à cruz. Com uma mão agarrou-a por um braço e, com a outra, pegou na flor, esmagando a com fúria. Flor e Eugénia foram atiradas porta a fora como se fossem lixo, tendo a criança sido proibida de retornar.
Nessa noite, a miúda mal conseguiu dormir, passando grande parte do tempo ajoelhada à beira da cama improvisada em casa da vizinha suplicando a todos os santos que conhecia e ouvira falar. Por entre rosários de Ave Marias murmuradas, adormeceu. A imagem não era nítida, mas parecia ser uma luta enevoada de homens andrajosos que vociferavam uns contra os outros numa língua que não conhecia. Havia muito sangue, corpos caídos no mar, cruzes e crescentes, pedaços de carnes sem dono e o som arrepiante de metal roçando em metal. Eugénia estava a ter um pesadelo. Queria acordar e não conseguia. O suor escorria-lhe pelas têmporas. Viu-se a atirar ao mar por entre aquele inferno na busca de um fim que não chegava. Morreu. Olhava-se morta sem compreender. Gemia enquanto dormia. Não tinha paz. Faltava-lhe sossego. A noite não tinha fim. Acordou transpirada de exaustão. Atravessou o dia cabisbaixa, ensimesmada no pesadelo da noite que já foi, temendo a noite que se avizinhava.
Tão tarde quanto a escuridão daquela noite de outubro, já a igreja tinha as portas fechadas, Eugénia, não desistindo do desígnio que encontrara em salvar a honra do pai, regressou ao local de onde havia sido expulsa. Desta vez, nada tinha para oferecer a Maria e ao seu Filho, limitando-se a fazer o caminho peregrinando, a rezar Ave Marias atrás de Ave Marias, intercalando aqui e ali um Padre Nosso, como se estivesse a desfiar um rosário que não tinha. Dois ou três Pai Nossos depois, à beira de um muro de pedra, uma beladona parecia iluminar-se como que a chamar por si. Eugénia colheu-a. Rezou mais uma meia dúzia de Ave Marias e mais uma flor se acendeu. Mais dois Padre Nossos. Nova flor. Chegada às grandes portas de madeira do templo, já Eugénia carregava nos braços uma imensidão de flores que mal conseguia segurar. Deixou-as cair no degrau da entrada e ajoelhou-se sobre elas. Subitamente ouviu passos e, antes que alguém ali a visse, correu rapidamente até casa, deitou-se num pulo e adormeceu.
Assim que fechou os olhos, a guerra da noite anterior recomeçara. Já não havia nevoeiro e o mar transformara-se em sangue. Ao longe avistou o pai. Estava aprisionado numa gaiola de prata, com um gigantesco bando de melros pretos a sobrevoarem em toda a sua volta procurando um espaço por entre as grades, ansiosos por o debicarem. Manuel, em silêncio, refugiava-se em posição fetal fugindo àqueles aguçados bicos amarelos. Só se ouvia o restolhar do bater das asas dos pássaros e o murmúrio de um mar que parecia morto. Eugénia quis ir ao seu alcance, mas uma força invisível puxava-a para trás como se alguém a segurasse pela cintura e impedisse os seus movimentos. Ainda procurou soltar-se. Não havia qualquer amarra. Não havia ninguém que pudesse ajudá-la. O mar revoltou-se. À medida que ia perdendo o fulgor, o vermelho das águas tingidas tornava-se cada vez mais intenso. Ao longe, a gaiola permanecia iluminada com os melros pretos em agitação permanente e Manuel em silêncio.
A manhã de sábado que antecedia o dia da procissão nasceu sombria. Há dois dias que não havia notícias do autor do magnífico altar construído propositadamente para receber a imagem de Maria, vinda de França, com o Filho ao colo. Como era costume, durante a manhã, Eugénia deu uma ajuda na arrumação e na preparação do jantar. Naquele dia, havia mais trabalho do que o habitual. A casa teria uma limpeza mais profunda, os tachos seriam areados e o negro do lar daria lugar ao imaculado branco da cal tanto quanto fosse possível. Era véspera da festa maior da localidade e toda a família se preparava para celebrar.
Eugénia não comeu, nem tão pouco se sentou à mesa da sua protetora. O pai estaria encarcerado na cadeia da vila culpado de um crime que não cometera. Ela sabia-o.
Nessa noite, à hora em que se havia tornado hábito ir à igreja, a rapariga saiu. Desta vez, à falta de outras, levava na mão um ramo de pequenas flores silvestres apanhadas nos cerrados das redondezas. Ao chegar próximo da igreja, as flores pareciam ter murchado e, na berma do caminho, uma beladona luzia como que iluminando a noite. Aquela, no entanto, havia sido esmagada por alguém, estando como que jazida na terra e, apesar do seu estado lastimoso, mantinha a frescura e o brilho de quem nunca conhecera o pecado. Era a mesma flor que a acompanhara nas últimas noites, nas caminhadas e nos sonhos que o não eram, e que havia sido atirada à rua pela ignóbil morgada na noite em que Eugénia se atrevera a entrar na igreja com o único propósito de pedir à Virgem que intercedesse junto do seu filho para provar a inocência do pai. Apanhou-a do chão e, mais uma vez, dirigiu-se à porta da casa de Cristo. Ajoelhou-se. Começou a rezar de uma forma tão fervorosa que nem deu pelo tempo passar. Terá adormecido.
No sonho ao relento, a gaiola mantinha-se brilhante com os melros pretos a rodopiarem à sua volta como se fossem abutres. A guerra ainda não havia terminado e o mar que outrora fora vermelho de sangue era agora um manto de corpos que jaziam flutuando à sua superfície. Subitamente, sobre o cárcere de Manuel, uma luz branca irrompeu por entre as nuvens encandeando Eugénia que nem se apercebeu da fuga apressada dos pássaros, nem do sepulcral silêncio que se lhe seguiu. Sentiu percorrer pelo seu corpo adormecido uma paz estranha só semelhante àquela com que despertou na manhã que antecedeu o funeral da mãe quando ainda vivia no lugar do Corpo Santo. Aos poucos, a luz branca foi tomando uma forma familiar, reconhecendo os contornos de uma mulher com uma criança ao colo. À medida que a figura se tornava mais nítida, as cores e as vestes ganhavam o brilho do ouro com as mãos da Mãe e do Filho a segurarem um rosário sem fim feito de contas de prata que, logo logo, tocaram nas grades da gaiola pulverizando-a no ar. Quando as partículas brilhantes começaram a cair sobre os corpos jazentes naquele mar de sangue, as suas vestes e armaduras tornaram-se brancas iluminadas em tons de rosa sem que se conseguissem distinguir vencedores ou vencidos, fiéis ou infiéis, cristãos ou mouros. O mar iluminou-se, inundando se de beladonas. A batalha chegara ao fim.
Aos primeiros raios de sol daquele sete de outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário, a manhã mostrou-se bem diferente das outras. Pelas bermas do largo em frente à igreja, pela rua principal da paróquia, pelo caminho que dava acesso a sua casa, por toda a freguesia do Arcanjo Miguel, nasceram dezenas, centenas, milhares de flores cor-de-rosa como aquelas que Eugénia ofereceu à Virgem e apareceram no seu sonho.
As pessoas que acorriam à igreja para assistirem à missa da manhã, ao se aperceberem deste inusitado fenómeno, diziam umas às outras que era a flor da Eugénia, aquela que todos os dias encontravam junto à porta da igreja assim que o dia nascia. Já no adro, viram que a menina dormia na soleira da porta deitada sobre um tapete de flores. “Eugénia! Eugénia!” Atordoada com todo aquele barulho, acordou e nem se deu conta do que à sua volta acontecia. “Milagre!”
Ao ver todas aquelas flores, a criança soube de imediato que Nossa Senhora do Rosário atendera as suas preces. Agora, todos acreditariam em si e na força das suas orações. Aceitariam a inocência de Manuel confirmada pelo milagre das beladonas, das simples meninas p’ra escola. Tinha sido um acidente, um mal entendido. Eugénia, com a flor com que adormecera na noite anterior ainda nas mãos, ajoelhou-se. A pequena multidão que se encontrava no caminho acompanhou-a. Ajoelharam-se todos e deram graças. “Ave Maria cheia de graça…” Nesse instante, as portas da igreja abriram-se e, do interior, exalou um intenso perfume a flores. O padre ordenou que levassem o andor da Virgem com o Menino nos braços até ao adro e, ajoelhando-se ao lado de Eugénia, continuaram a récita do Terço.
Nessa primeira procissão do Rosário as pessoas engalanaram as suas janelas de colchas de tear, colocaram bandeiras em mastros e cobriram as ruas de verdura e flores rosadas. Os paroquianos que seguiam nas alas da procissão levaram cada um na sua mão a singela flor do milagre como que a dizer que acreditavam na inocência de Manuel. D. Maria Francisca não participou no cortejo, mas enviou uma mensagem ao carpinteiro dizendo-lhe que teria a sua casa de volta.
No dia seguinte, provada que estava a sua inocência e depois do reencontro com a filha como homem livre, arrumaram as suas coisas e regressaram à sua vida no Corpo Santo. Eugénia, no entanto, partiu levando consigo a memória de um milagre e, todos os anos, a seis de outubro, a cada véspera de celebração da Senhora do Rosário, enquanto as forças o permitiram, fez a pé o caminho, desde a cidade até paróquia de São Miguel Arcanjo das Lages, para agradecer à Virgem e ao Seu Filho a ajuda dada na prova da inocência do pai. Lá chegada, depositava sempre uma beladona junto ao altar e, durante toda a noite, permanecia em vigília recitando continuamente o terço. As senhoras da paróquia acompanhavam-na nesta penitência e a igreja enchia-se de mulheres que traziam, cada uma, uma beladona daquelas que, espontaneamente, cresciam à porta de suas casas.
Assim sempre foi até que o milagre de Eugénia do Rosário como, entretanto, passou a ser conhecida nas Lajes, foi caindo no esquecimento.
Disse-me ainda a senhora Mercês que a avó sempre enfeitou o seu pequeno oratório de casa com flores de beladona, assim que chegava o mês de setembro e elas começavam a aparecer nos quintais e nas valetas, alumiando os caminhos das meninas p’ra escola.
Eugénia terá morrido no Corpo Santo e por lá terá sido sepultada. Ninguém lhe conheceu marido ou descendência e, da sua memória, resta apenas esta história tornada lenda porquanto não se saber onde começa e acaba a verdade. Nos dias de hoje, assim que estas beladonas começam a aparecer, lembramo-nos que a escola está a começar e que, em breve, serão as festas das Lajes responsáveis pelo encerramento das festas de verão nesta ilha Terceira de Jesus Cristo. Infelizmente, poucos saberão que aquelas modestas flores significam muito mais do que isso e terão sido as portadoras de um milagre esquecido...